Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012

Daqui até ali

O segredo estava no toque, essencialmente no toque. A mão por cima, e os seus dedos deslizavam pelas costas da mão, dando lentamente a volta. A palma da mão na palma da outra e o calor dos dedos a subir-lhe pelos pulsos. Era o suficiente para lhe provocar arrepios. Num toque tão simples, revelava-se a intimidade dos dois. Com apenas aquele gesto podiam fazer os dois corações bater forte, cada vez mais forte. Os olhares perdidos por entre as mãos dadas cruzavam-se num raio fulminante e demoravam-se. Aí paravam. Olhos penetrantes aqueles castanhos, conseguiam fazer transbordar de brilho os outros com laivos de verde azeitona. Nada era dito, não eram precisas palavras. Ouvia-se apenas duas respirações a subir de tom. Inspira e expira. Sem pensar, sem querer. Aquele momento era único, ali estava a felicidade. Ali o sol brilhava ardentemente por entre uma dança de estrelas cadentes. Que beleza tão extraordinária a da paixão! Que fugaz. Que cheia de tanto, tem de explodir... Que paixão arrebatadora aquela que bate sem que a esperemos. Só ela consegue transformar dois seres ordinários num momento extraordinário. Momento sem esquecer, momento sem retorno. Momento único que enganava antevendo uma felicidade vindoura. Momento que o era por si só. Momento que de tão perfeito não durou mais que o momentâneo. Momento, um momento.

Sábado, Fevereiro 18, 2012

Para ser importante

Para ser importante é preciso tempo. Não chega uma semana, um mês ou seis. Dizem que as relações humanas não se podem medir pelo duração que têm, mas sim pela intensidade. Mas é mentira. Para se ser importante na vida de alguém é preciso tempo, muito tempo. É preciso mais que conhecer. Tem de se saber de cor. É preciso entrar e ficar. Só assim se pode vir a ser importante na vida de alguém. A única forma de avaliar o que de facto vale a pena é pelo tempo que dura. Quem entra e sai não guarda lugar. Só uma memória, apenas. Que com o tempo fica sem cor e ao fim de anos só uns meros traços marcam a sua passagem por ali, um dia, há muitos anos atrás. Quem vem para ficar, certamente ficará importante. Quem por cá passou e não ficou, perdeu a importância lá atrás. Às vezes penso que sinto saudades, mas quando penso um pouco melhor, saudades de quê? Aconteceu, acabou e passou. E não há muito mais para acrescentar. As vidas colidem umas com as outras. Às vezes faz faísca, outras não. Podem colidir e manter-se perto, nem que seja perto de vista. Mas também podem colidir e depois afastar-se, e desaparecer por entre os desencontros que criamos. Olho para trás e vejo tudo. Mas com cores reais apenas vejo quem ficou. Quem não deixou que o tempo o rasto lhe apagasse. E está tudo bem assim. Só assim poderia estar. Só assim sei quem aqui pertence verdadeiramente. No crivo do tempo foram passando pessoas, lugares, acontecimentos... momentos. E o hoje não é mais o ontem. Olho em frente e fico curioso. Mas o importante agora é olhar para o lado, para este momento, e ver quem cá está comigo. Quem cá está conta, pois sim. Quem cá está é importante, e não poderia ser de outra maneira.

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012

Passo a citar

Normalmente não faço transcrições para aqui, mas li mesmo agora um texto espectacularmente bem escrito, de Miguel Esteves Cardoso, no blog do Pedro, Do You Believe in Angels? e passo a citar para que quem por aqui passa também o fique a conhecer.

"... Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. "

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'

Segunda-feira, Fevereiro 06, 2012

Motivado

Porque há dias que correm mesmo bem! Dias em que com a ajuda deste sol maravilhoso a brilhar, e sem tanto frio, que parece ter dado tréguas durante um tempinho, uma pessoa sente-se cheia de vontade de ir lá para fora e agarrar a vida.

Hoje acordei bem-disposto! Hoje recebi um telefonema inesperado, que me deixou contente, nem sei explicar bem porquê. Hoje superei-me a mim próprio. Hoje não parei!

Parece-me que depois da tempestade vem sempre a bonança. Não gosto muito de provérbios pois nem sempre fazem sentido, mas este aplica-se. Aos poucos parece que consegui encontrar um caminho. Já me sinto mais Eu, depois destes mesitos meio atordoado. Parece-me bem arriscar e dizer que estou de novo ao leme deste navio, e caramba... só me apetece meter prego a fundo e navegar até à tal linha do horizonte! Aos poucos já me sinto a ganhar controlo novamente, o segredo é não parar e continuar sempre. Tenho algum trabalho pela frente, e sinto que vai ser um desafio. Nem sei bem como vou fazer, mas sei que vou fazê-lo. Antes nunca foi preciso dizerem-me que era capaz para ir em frente e lançar-me no desconhecido. Continuo a não precisar. Porque vou, e vou mesmo!

Terminei o dia com uma corrida. Interminável, mas excelente! Tinha pensado para mim mesmo "Bem, já não corro há umas duas semanas, hoje não deve render muito" mas quando comecei, aquilo soube mesmo bem e decidi "hum, devo conseguir fazer a volta dos tristes (carinhosamente por mim baptizada, com direitos de autor da Professora do 10º ano a.k.a. Bin Laden)" e afinal corri muito mais que a volta dos tristes, inventei e fui por outros caminhos e no fim só parei porque o sol já se tinha posto e estava na hora de regressar a casa e acabar com uns abs, porque estavam mesmo a fazer-me falta! E depois o duche quente para relaxar totalmente.

Isto pode nem ser nada humilde,
mas hoje só me apetece dizer
"Ah ganda João!"

Domingo, Fevereiro 05, 2012

O momento foi

Beijaram-se. Demoradamente e sem pensar. Os lábios de ambos uniram-se pela primeira vez, e foi como se o mundo tivesse parado. Ali naquele instante. Era aquele o momento. O beijo, mais intenso não poderia ser. De tirar o fôlego e deixar à mercê de quaisquer dois corações que poderiam bater ao mesmo ritmo. No silêncio da noite entregaram-se um ao outro. Do toque dos lábios ao toque da mão. O mundo em vez de parado, girava agora a velocidade alucinante e as estrelas deixavam de ser pequenos pontos luminosos para dar lugar a um espectáculo mais brilhante que um fogo de artifício, à luz do qual dançavam dois corpos despidos de tudo o que os rodeava. Tocando-se, sentindo o calor um do outro, o desejo a transbordar pelas margens da paixão. E já não eram dois, mas sim como um só. Eram tanto ali, naquele momento e naquele lugar. Eram um todo e a soma das partes. Eram o hoje, o ontem e o amanhã. Por breves momentos reinaram naquele castelo macio de algodão, embalando-se um no outro pela noite adentro. Juntos, ali. Banhados pelo luar da noite perderam noção das horas. Era dia e o sol ia já alto quando ele acordou. Sentiu aqueles raios de luz entrar pela janela do quarto. Estava frio. Gelado até. Ele estava sozinho. Tudo não passara de um sonho. Isso, tinha sido apenas um sonho. Não era real. Embora parecesse. Acontecera, mas de facto não tinha acontecido. Confuso perdeu-se. Tinha sido sim, mas não mais do que algo que não existe de facto. Estivera no castelo de algodão. Macio. Não estava mais. De muralhas despedaçadas, tinha caído das nuvens e o que foi não era mais. Tão simples quanto isso. Não fazia sentido complicar o que claro estava.

Rendição


Acordou com um estalido vindo do lume. Esquecera-se de onde estava, por momentos, minutos ou talvez tivessem sido horas, estivera adormecido. Os olhos teimavam em não querer abrir-se. Não queriam ver. Nem os ouvidos queriam ouvir. Nem o cérebro queria pensar. Só o coração. Esse... ele não sentia bater. Parecia sim um nó que lhe tinha dado, amarrado ao diafragma, para não bater demasiado. E agora parecia que já não batia. Mas não podia ser, tinha de estar a bater. Os olhos podiam não ver, os ouvidos podiam até nem ouvir, o cérebro podia parar de pensar por momentos, mas o coração, esse tinha de continuar a bater. Esse tinha de continuar, sem ele nada mais haveria. Esse que tinha subido aos montes e descido aos vales de encostas íngremes durante tardes de sol, noites de frio e manhãs de preguiça. Esse tinha lá estado sempre a comandar as operações. E agora estava ali, reduzido à insignificância que lhe era dada. Certo ou não, era o que restava fazer. Ignorar não dava mais. Pedir-lhe que não batesse tão alto não iria resultar. Foi então decidido amarrá-lo às suas raízes. Tentaram dizer-lhe tantas vezes antes para não o fazer. Tentaram que ele se mantivesse quieto no seu lugar. Naquele sítio quente e escondido, onde só entra quem de facto consegue. Tentaram... mas ele não ouviu. Partiu as barreiras e saltou. Queria saber como era, saber qual o sabor de um todo que afinal era nada. E ele bateu forte. E mais forte. E subiu e quase tocou o sol. E ele gostou. Mas o sol não está lá sempre. E a noite escura vem depois de um dia solarengo. E essa noite veio gelada. Sem chuva sequer para lavar as lágrimas da desilusão. Apenas um frio que as congela, prega-as à face e não as deixa cair por fim. Impede-as de chegar ao destino, e sem as lágrimas no destino, é difícil saber que se chegou ao ponto final. Assim, o coração continuou a bater naquele sítio frio. Veio a noite, ele não se recolheu. Veio o céu escuro, faltava-lhe o luar. E as estrelas, que não brilhavam. Nunca brilharam desta vez. Isso deveria ter servido de sinal. De aviso que algo estava errado e que sem luz, tudo fica sem sentido. Mesmo assim, o coração não parou. Mesmo assim ele não ouviu e quis ser audaz. Quis armar-se em forte e não teve medo das alturas.
Até que o monstro chegou. Sem aviso ou previsão. Aquele monstro disforme chegou. E gelou os dedos para impedir o toque. Subiu pelas mãos para as não deixar fazer qualquer sinal. Continuou por aí acima num repente e apenas se sentiu a respiração ficar mais lenta. E ele ficou zonzo. Apanhado desprevenido não sabia o que fazer. Sabia apenas que aquele monstro vinha para derrubar e que tinha mesmo de ser assim. Para quê fugir mais dele? Para quê deixar que aquele mergulho nas águas da paixão imaginada se tornasse mais profundo do que era? Não. O monstro tinha chegado e ele sabia porquê. Então, sem dar luta, expôs o peito de guerreiro ao monstro e de olhos fechados, deixou que este lhe acorrentasse o coração ao lugar fundo e escondido. Ao lugar de onde lhe disseram para não sair. E o guerreiro deixou-se cair. Lentamente, naquele canto entre duas paredes até ao chão. O guerreiro caiu e ali ficou. Ali ninguém o via. Ali tinha que permanecer. Até um dia. Até um outro dia chegar.

Quarta-feira, Fevereiro 01, 2012

O Hoje, interessa.

Parece-me que a melhor opção é sempre pensar no dia de hoje. Focar a atenção no tempo presente. Esquecer um pouco os planos para o futuro e aquela vontade viciante de querer chegar não sei onde, que às tantas não se traduz numa força impulsionadora em frente mas antes numa força que regride para a frustração. Isto porque hoje, apesar de ter sido um dia cinzento e frio, foi precisamente isso que fiz. E soube bem para caramba!
Ando sempre a procurar isto e aquilo, porque sinto que quero mais. E acho que está certo querer mais da vida. Está no meu direito querer chegar a qualquer lugar. Todos queremos isso afinal, não? Foi por isso que em Outubro fui embora para Londres. Mas vendo bem as coisas, o mais importante é aquilo que está presente no dia-a-dia e, por isso, valoriza-se menos do que devemos. E por isso, regressei a Portugal. Afinal é bom poder viver a 5 minutos da casa dos meus avós e ir lá almoçar com eles e beber um cafézinho à lareira. É bom estar em casa da mãe e estar com ela todos os dias. É bom até a algazarra que os putos fazem cá por casa, todos os dias e a toda a hora. Afinal até me sinto bastante realizado a fazer o meu trabalho, que apesar de pouco, está a crescer... devagarinho, mas está. Hoje foi dia de conhecer mais uma turma. A primeira aula, mais um capítulo de um novo projecto. E foi bom, muito bom! Posso dizer que estou entusiasmado. Tive mais pessoas do que esperava e, tal como há uns meses atrás, vamos começar do zero e ensinar Fitness a quem nunca o fez! Espero que a turma tenha tanta vontade de aprender como eu tenho de ensinar, porque se assim for, vai ser excelente ;)

Eu sei lá onde estarei daqui por 6 meses ou 3 anos. Eu nem sei bem o que vou fazer da minha vida. Ou se calhar até sei, não sei é como começar. Mas quando nasci não trazia manual de instruções nem um mapa a marcar os pontos de interesse da minha rota. Há que ir descobrindo aos poucos. E enquanto isso, viver o dia-a-dia parece-me bem. É mais ou menos o que diz a letra desta música...